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Para o policial rodoviário que me abodou, eu deveria parecer deste jeitão.
Para o policial rodoviário que me abodou, eu deveria parecer deste jeitão.


Nem tanto quanto o policial rodoviário achou que eu era, costumo ser assim no meu dia-a-dia.
Nem tanto quanto o policial rodoviário achou que eu era, costumo ser assim no meu dia-a-dia.

By Renzo Querzoli, Clique no nome do autor ao lado para comentar.

Segunda, 17 Novembro 2008

A quinta-feira parecia maravilhosa. Reunião confirmada numa cidade a 300 kms de São Paulo, manhã fresquinha antes do solzão de setembro, óleo novo no motor, pneus calibrados...

Saí de Sampa antes das 8:00 porque odeio chegar atrasado, então fui tranquilo, até para ver quantos kms por litro a minha Guzzi faz andando a 110. Já chegando ao meu destino, depois de 250 km, fui parado no posto da polícia rodoviária e ...gelei. Em um instante, lembrei que estava com o licenciamento vencido e, para resumir, o policial era um daqueles de cinema americano, antipático e absolutamente intransigente. Bem ao contrário da enorme maioria da Corporação da Polícia Rodoviária.

Claro que eu estava errado em circular com documentos “em desordem”, não discuto isso. Mas passei mais de uma hora explicando que estava indo para uma reunião de trabalho super- importante, que estava sendo agendada e preparada fazia tempo, que era importantíssimo chegar na hora marcada com os diretores e de como era importante para mim. Ele só repetia que era norma e que iria reter meu veículo. Quando vi que não teria jeito, pedi que me deixasse continuar por 50 kms, fazer a reunião e na volta deixaria a moto lá com eles, enfim, tentei absolutamente todos os argumentos, mas ele foi irredutível. Os colegas dele, que chegaram depois, eram pessoas normais e deixaram claro que por eles, me liberariam só com uma multa, mas o rapaz achou que voltar atrás seria uma prova de fraqueza ou de baixa masculinidade. É importante dizer minha aparência era de um senhor de 56 anos, indo para uma reunião de business: camiseta pólo preta, jeans preto, bota, jaqueta de cordura preta, enfim, só digo isso para que ninguém pense que eu parecia um Hell Angel ou um porraloca mais abrasileirado. Enfim, foi totalmente broxante e sem ter mais o que fazer ou dizer, fui pedir carona na beira da estrada para voltar a Sampa.

Atravessei a pista de asfalto fervente que parecia gelo perto da temperatura do meu sangue, e sentado no guard-rail resolvi que não seria um contratempo desses que iria me segurar. A alma selvagem grita mais do que a testerona, não teme chuva, frio, nem pessoas de má índole, então liguei para o diretor da empresa e avisei do contratempo. Quando ele disse que poderia me receber a qualquer hora, então atravessei a pista de novo indo para o sentido SP-Interior e -fuzilando com o olhar o guarda só-sigo-o-manual-  me posicionei bem em frente a ele, esticando o braço, polegar em riste, durante 55 minutos. Detalhe: 10 graus de umidade (secura Dakariana) e quase 40 de temperatura ambiente. O cara deve ter tido espasmos de alegria e felicidade ao ver a minha dificuldade, de roupinha escura e fritando ao sol, mas finalmente uma pessoa legal parou e me deixou na cidade para onde eu ia. Chegando lá, peguei pela primeira vez na vida um moto-taxi, para me levar à fabrica. E aqui juro, meus amigos, que prefiro pegar uma garupa com o Casey Stoner bêbado, na marginal do Tietê, arrepiando na chuva, com areia e óleo misturada do que andar do jeito que andei.

A CGzinha estava com a coroa desdentada e dava trancos o tempo todo. Como eu tinha meu capacete, o cara pilotava com o segundo casco dele na mão esquerda e de um jeito que nunca vi: ele acelerava tudo e assim que podia, apertava a embreagem e ia na banguela, para gastar menos gasolina. Depois, para retomar a velocidade anterior ele acelerava forte, gastando em dobro. Ah, reduzir nem pensar, ele ia em frente cortando o trânsito, para não perder velocidade e... economizar gasolina. Bom, como chegamos inteiros até o bairro industrial eu nunca saberei dizer, mas cheguei. E depois dizem que pára-quedismo é esporte radical...

A reunião foi ótima. Conheci um homem de marketing digno desse nome, coisa rara nos dias de hoje e espero que eles topem ser nossos parceiros do Alma 2. Após a reunião, um motorista da empresa me deixou na rodoviária, peguei um busão com ar-condicionado que nos levou em ritmo de passeio de Harley Davidson até Sampa. Foram mais de 5 horas para fazer 300 kms, que usei para me acalmar, pensar em como a vida pode ser tragicômica e em como resgatar minha Cássia Eller, a moto, e tirá-la daquele páteo o mais rápido possível. Mas deve ter sido bom para ela, dormir naquele céu super-estrelado, numa região linda. A Cássia tem comigo uma vida bem emocionante e engraçada, pensando bem.

Minha preocupação era não conseguir retirar minha moto na sexta e ter que deixá-la passar o fim de semana fervendo no páteo da rodoviária, sem contar que minha segunda-feira iria pro espaço, afinal ela estava meio longe. Acordei cedo e deixei os documentos no despachante, que prometeu entregar tudo pago e em dia até as 14:00 hs. Agora o problema era como chegar até minha moto, a 250 km de distância, contando sair de Sampa às 14:00. Pensei em pedir para algum amigo, filho ou para a Flávia, minha mulher. Mas acho sacanagem pedir para alguém gastar uma tarde inteira, rodar 500 km, passar por 8 pedágios na ida e 8 na volta e voltar sozinho, pegando o rush do fim-de-dia. Isso é favor que se pede para inimigo, penso eu. Ir de ônibus demoraria muito, sem contar o tempo de chegar em algum ponto de embarque. Então fiz um plano: chegar até um posto de gasolina na rodovia e de lá dar um jeito de chegar mais rápido do que de onibus. Imaginei no mínimo encontrar algum carro de empresa, com placa da região de Ribeirão Preto e pedir uma carona. Então pedi para minha mulher me levar até o despachante, onde peguei os documentos e depois me deixar no Alto da Lapa, onde começou a parte divertida e interessante da historia. Me despedi e vi a Flavia se afastar em nosso Fusca 74 (na família desde zero) e esperei uns minutos na rua esperando passar algum motociclista profissional, que me deixasse no primeiro posto da Rodovia dos Bandeirantes.

Passaram uns 8 ou 10, todos com baú traseiro, que impediria garupa. Teve até um garoto que parou do meu lado, puxei papo e ele falou que se eu topasse, ele iria no tanque e me levaria. Recusei agradecido e esperei. Em seguida apareceu um sem baú, fiz sinal, conversei com ele e fechamos na hora: 10 reais até o primeiro BR da Bandeirantes. Joel era o nome desse cara sangue-bom. O problema era que no lugar do garupa tinha uma aranha amarrando um par de botas de chuva e uma lista telefônica, mas ele disse que eu podia sentar encima. Na adrenalina, eu subi e lá foi nóiz.

A cena deve ter sido hilária e só de pensar... imaginem um “alemão de 1,87, capacete integral, na garupa de uma CGzinha, em cima de 2 galochas e uma lista, escorregando feito geleca. Pedi desculpa pro piloto e apertava meus joelhos quase na altura das axilas do coitado quando ele arrancava ou freava. Saindo do trânsito pesado a coisa melhorou e a gente lá, acelerando e a CGzinha gritando. O posto não chegava nunca e lá pelo km 20, o Joel ficou preocupado pois ia se atrasar demais, pediu mil desculpas e pediu para me deixar num trevo de retorno para ele. Não quis aceitar os 10 reais. Eu insisti e dei 20. Grande Joel. Só porque me viu de capacete, jaqueta e botas. Coisas que só motociclistas recebem a dádiva de viver e entender...

E lá estava eu. No meio de um trevo, casco, jaqueta e um sol de rachar. Uma delícia. Já estava pegando gosto pela coisa. Parecia um daqueles jogos de PS2, onde você vai passando de fase em fase. Um detalhe: no trevo já tinha um sujeito, meio rechonchudo, pedindo carona. Me ferrei, pensei. Ah, preciso avisar que nunca não lembro de ter pedido carona na estrada, nos últimos 30 anos. Então fiquei na dúvida se ficava junto, na frente ou atrás do meu concorrente. Achei que ficar atrás seria melhor, pois sempre que a gente vê alguém pedindo carona, demora um pouco para decidir se dá ou não dá, mas aí o caroneiro já ficou longe. Resolvi ficar uns 100 metros depois do cara e acertei. Em menos de 5 minutos uma pickup parou e conheci o Goiano, grande figura e ótimo papo, que me deixou num posto próximo de Jundiaí, sua cidade.

Novo lugar, nova fase. Olhava para meu relógio, impaciente e de olho na saída do restaurante. As pessoas chegavam nos carros e quando eu as abordava, me respondiam com um misto de estranhamento e gentileza, mas percebi que não seria fácil achar alguém que se arriscasse a me levar e ainda por cima estivesse indo na direção certa, e pelo menos a 300 km de distancia.

Já começava a me achar um idiota por não estar no ar condicionado de um lento Cometão, quando passou por mim um rapazinho com colete de Moto Clube, numa Suzuki Intruder 125 com alforges, guidom alto e caveirinha com luzes nos olhos em cima do guidom. Parou numa loja de acessórios para motos, a Suzuki Fashion e fui lá, me apresentei e 10 minutos depois eu estava a bordo da Intruder, recostado no sissy bar, apoiando meus pés nas plataformas adptadas pelo Alex, esse cara fantástico que me ouviu e resolveu fazer 500 km, de uma hora para a outra, levando um cara grandão e pesado no meio de carretas, ônibus e carros passando a 120. Parecia que voavam.

Foi uma das melhores viagens que fiz em minha vida. Nota 10 para o conforto, 10 para o piloto. Íamos a 100 no plano, 110 nas descidas e 90 nas subidas. Suzukinha valente, o tempo todo no gás, sem engasgar, com o escapamento gritando alegre. Adorei andar na mesma velocidade das outras 125, que são absolutas nas estradas... os longos contatos visuais com os outros motociclistas, entre as várias cidades que cruzamos... como os carros milzinhos andam depressa... como as motos grandes aparecem e somem em um instante... como elas parecem enormes. E a arte de domar as turbulências dos ônibus e carretas, verdadeiras locomotivas?

Quando você anda rápido, a moto funciona como uma faca, cortando o ar. Mas se você está devagar não corta. Tem que lutar com paredes de vento que te estapeiam com força. Enfim, foi uma viagem fantástica, com paisagens lindas e podendo olhar para os lados o tempo todo. Viajar na garupa é irado.  Paramos 2 vezes para uma coca, esticar minhas pernas e... pau na Intruderzinha. O nome dela é Marta, mas deveria ser Valentina. E assim fomos, subindo e descendo colinas, pegando embalo nas descidas e eu tentando não pensar na velocidade. Estávamos mais rápido do que os ônibus e isso me bastava. Chegamos com o sol quase se pondo, uma bola enorme e linda. O Alex me deixou no km 255, fizemos uma foto, um abraço de verdade e se mandou. Grande Alex, agora somos amigos. Os soldados da polícia rodoviária foram super-simpáticos e diria até camaradas, como quase sempre. Liberei a moto em 10 minutos e acelerei com vontade.

Deve ter sido o sol forte, mas tive a impressão que minha moto balançou a traseira quando me viu chegando. A volta foi uma delícia. Os 74 cavalos pareciam 270 e eu me sentia confortável como nunca. A noite deliciosa, a estrada perfeita e super-sinalizada, os cheiros das plantações é noite, pura delícia pura.

E ao contrário da frustração do dia anterior, quando voltei de onibus cheio de sentimentos negativos, essa volta foi inesquecível e simplesmente lavou minha alma.

E finalizando: nunca se esqueçam de verificar a documentação da moto.

Fotos: Renzo Querzoli




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